O pai Natal é grego. O seu nome de batismo é Nicolau, Νικόλαος lá na terra onde nasceu pelo ano 270, e ganhou fama de santo por ter a mania de enfiar moedas nos sapatos de quem mais precisava. De Santo Nicolau a Santa Claus, depois Pai Natal, o velho de barbas brancas que começou a vender coca-colas nos Estados Unidos e acabou transformado num boneco de pano que trepa varandas em Portugal feito uma osga, vão alguns séculos de adaptações da cultura popular, com muitas corruptelas e transliterações pelo meio. Mas a essência permanece: a figura de um milagreiro que distribui presentes em época de boa vontade.
Esta é a história. O que suspeita é que o Governo português a possa ter levado demasiado à letra. Olhando para a Grécia e para os benefícios que por lá se anunciavam nesta quadra, após o acordo de há uma semana entre o FMI e a zona euro para aliviar o fardo helénico, Vítor Gaspar garantiu que o país seria “beneficiado pelas condições abertas no quadro do fundo” de resgate. Depois, sabendo que em Bruxelas se rejeitavam alívios a Portugal, manteve a posição, “sem prejuízo da especificidade do caso grego”. Dito de outra forma, o Natal traria da Grécia algum alívio para os nossos sapatinhos já gastos, oferecendo condições vantajosas no quadro do fundo de resgate. Pricing, maturidades máximas, prazos de pagamento de juros e todas essas variáveis que nos oprimem qualquer possibilidade de discutir politicamente este país deveriam ser iguais para todos os resgatados, independentemente do nome que dessem ao velho: Aγιος Νικόλαος, Saint Nicholas ou Pai Natal.
Também Passos Coelho, embora desvalorizando o valor da prenda (o país pouparia “20 e poucos milhões” por ano em juros e o diferimento no pagamento só tinha “efeitos de tesouraria”), insistiu no “princípio da igualdade” que, de resto, garantiu ter sido adaptado na zona euro por sua proposta. E enfim, como manda a tradição, os presentes chegaram montados em três camelos. Lá mais acima, qual estrela do Norte, o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Junker, já se tinha alinhado com os magos Passos e Gapar para corroborar o milagre: “regras iguais para todos”.
Uma semana depois, veio um alemão com cara de poucos amigos e acabou com a festa. Seria “chocante” estender as condições gregas a Portugal e à Irlanda, soprou Wolfgang Schäuble com a força de uma rabanada bastante para cancelar as filhoses. Logo Junker dá o dito por não dito, dizendo que disse o que disse por equívoco: “percebi mal a pergunta porque nem sequer a ouvi”. Depois veio Passos garantir que "Portugal não está a reclamar um tratamento igual ao da Grécia no acordo que foi obtido para a Grécia", porque Portugal não é a Grécia, não quer ser a Grécia, não pode ser a Grécia. Mais que isso, havia que escutar o elogio nas palavras do alemão, pois o bom aluno, manda a tradição, não tem prendas no Natal. E a todos frohe weihnachten. Em nossa salvação, Gaspar fez o favor de resumir tudo isto à complexidade que só ele e os deuses do olimpo sabem ler: “a simplificação excessiva de assuntos complexos conduz inevitavelmente a mal-entendidos”.
É pena, mas é isto: percebemos mal. Bastava um simples importa-se de repetir? e tínhamos poupado uma semana de expectativas doridas. Por momentos, pareceu até que o Governo português tinha uma estratégia integrada e um pensamento europeu para tudo isto, que podia até estar, quem sabe, a trabalhar paciente e habilmente para reverter em benefício próprio os alarmes que já soam em Bruxelas e as circunstâncias que ameaçam toda a zona euro. Não. Em resumo, foi um equívoco. Faz sentido. O Pai Natal podia até ser grego. O problema é que não existe.
Chegamos lá vivos. Mas vai custar. É a frase que fica da primeira entrevista do primeiro-ministro após a aprovação do Orçamento do Estado. Desde logo, porque as palavras de esperança não abundam no seu discurso e ouvi-lo dizer que havemos de sobreviver é, apesar de tudo, melhor que nada. Mais que isso, porque nos deixa vislumbrar um rumo: lá. Seja lá o que isso for. O diabo, como sempre, está na adversativa: o mas que nos vem lembrar o quanto vai custar chegar lá, não fossemos nós andar entretidos por estes dias a pensar noutra coisa. Chegamos lá vivos. Mas vai custar. A frase é exemplar do pensamento político de Passos Coelho. Na verdade, é todo o pensamento político de Passos Coelho.
Porque sobre o lá, Passos pouco disse. Limitou-se a mais um lamiré sobre quanto nos vai custar lá chegar. Lá é um lugar que fica pelo menos quatro mil milhões de euros mais adiante, muito para lá do enorme aumento de impostos e de tudo o que viveremos em 2013. Pode ser à custa da escola pública, pode ser à custa de mexer nas pensões mais miseráveis, pode ser à custa do coiso, pode ser à custa do que puder ser, custe o que custar. Passos não sabe, não diz, não garante. Portugal não é a Grécia, Portugal pode ser tudo menos a Grécia. Portugal não sabe o que quer ser, apenas que não quer ser a Grécia. A estratégia resume-se a isso. E é isso que assusta. Que esse imenso mas de tudo o que nos vai custar não tenha um lá que sirva de razão. O que ficará depois não se sabe, não se diz, não importa. Quando lá chegarmos, lá veremos.
Estratégia, do grego antigo stratègós, resulta da junção de stratos, exército, e ago, liderança. Originalmente, significava qualquer coisa como a arte do general. Pois por cá, tudo o que o general tem para nos dizer é isto: para lá, rapidamente e em força, repetindo-se à exaustão numa espiral obsessiva. Lá é uma folha de Excel imaculada. É o lá, lá, lá do circulo virtuoso que Vítor Gaspar sonhou. O que lá realmente encontraremos é uma incógnita tão grande como a fantasia dos números inscritos neste orçamento. Resta o alívio de que lá chegaremos vivos. E a certeza de que Portugal não é a Grécia, mas os portugueses vão ver-se gregos.
A cada vez que se fala em execução, a gente sente-se em frente de um pelotão de fuzilamento. De espingarda apontada à cabeça, a esperança morre primeiro que o condenado. A execução orçamental foi divulgada ontem e nem sequer foi notícia. Já se sabia, a sentença era conhecida e transitada em julgado. Não comoveu. Os números de ontem não batem certo hoje com o que se prevê para amanhã. Já se percebeu. O paradoxo é este: Portugal é hoje um país previsível apesar de falhar todas as previsões.
Na semana que passou, o Governo apresentou a sua proposta de Orçamento para 2013 e as surpresas também não foram muitas. Já as reacções foram. Muitas, variadas e para todos os gostos. Houve quem falasse em assalto, quem lhe chamasse desgraça, choque, bomba, quem o dissesse inevitável e até quem o defendesse. Mas houve um ponto de salutar consenso. Da esquerda à direita, de cima a baixo, executados e executores de anteriores executivos, quase toda a gente concordou: não é executável. Entre essa multidão, impressionaram Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, dois cidadãos com dois pontos em comum: ambos foram ministros das Finanças pelos partidos que desenharam este Orçamento, nenhum deles cumpre os mínimos para ser caloiro de António Borges.
Bagão começou por dizer que "isto é um terramoto” e que “ só falta saber se é 7 na escala de Ritcher, que é destruidor, se 8, que é arrasador". É uma imagem que se desaconselha, considerando a meia dúzia de sismólogos italianos que vão presos por não saberem avaliar um tremor de terra. Ferreira Leite também pressentiu a devastação: “vai aniquilar a classe média”, “vai deixar tudo morto”. Mas o campeonato das alegorias da desgraça esteve animado. “É napalm fiscal”, disparou Bagão. Depois, recuperando a parábola clínica da ex-ministra social-democrata, que falou da austeridade como um xarope que já não se engole, o ex-ministro do CDS diagnosticou que “esta receita pode gerar uma septicemia na economia.” Por fim, Ferreira Leite soergueu os olhos para o céu. “Quando olho para o Orçamento e o leio com a atenção devida tenho duas certezas: uma é de que não é exequível e outra é que abre um buraco negro muito grande sobre o nosso futuro.” Catástrofe natural, acto de guerra, doença terminal ou acontecimento de efeitos imprevisíveis para ser decifrado por astrofísicos: em resumo, é disto que se fala quando se fala deste orçamento.
Dito isto, sublinhe-se a lucidez de cartomante revelada por Ferreira Leite quando aponta para as estrelas. Estimar que a recessão fique em 1%, que o desemprego não vá além de 16,4%, que as receitas do IVA cresçam 2,2%, tudo isto, já se percebeu, é mais ou menos do domínio do oculto. E aqui entra a fezada, essa versão tão portuguesa e coloquial da fé dos homens. A fezada é mais que fé, mais que crença religiosa ou virtude teologal. A fezada é sagrada e pagã, tanto teme a deus como aos búzios. É uma mistura fascinante de facto e crença, convicção absoluta e certeza absurda, construção lógica e irrealismo trágico, suspeita fundada e confiança sebastianista. É aquilo que em Portugal tanto serve de avale a um plano esforçadamente engendrado como à inabalável intuição de que nos vai sair o Euromilhões na terça-feira. Mas com este OE dá-se um passo em frente. Nos mapas das receitas do Estado surge uma nova rubrica: Lotarias (está lá, vão conferir, mapa VI). Em cima de tudo o que se sabia, Gaspar decidiu taxar a nossa sorte a 20%. Um quinto do valor dos prémios de jogos sociais acima de 5 mil euros é para o Fisco. Quem vê no ministro um perfeito contabilista germânico, desengane-se. Porque com esta ideia simples Gaspar introduz definitivamente essa variável tão genuinamente portuguesa na difícil equação de um resgate estrangeiro. Contas feitas, o Estado tem a fezada de encaixar 50 a 60 milhões com a sorte que teremos no ano de todos os azares. Ora aí está a boa notícia: pelo menos 250 milhões em totolotos e raspadinhas ninguém nos tira. Haja fé, haja fezada, haja paciência. Porque Portugal está hoje como o Brasil que o grande MIlôr Fernandes diagnosticava há uma década: condenado à esperança.