Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

A máquina de fazer gregos

Chegamos lá vivos. Mas vai custar. É a frase que fica da primeira entrevista do primeiro-ministro após a aprovação do Orçamento do Estado. Desde logo, porque as palavras de esperança não abundam no seu discurso e ouvi-lo dizer que havemos de sobreviver é, apesar de tudo, melhor que nada. Mais que isso, porque nos deixa vislumbrar um rumo: . Seja lá o que isso for. O diabo, como sempre, está na adversativa: o mas que nos vem lembrar o quanto vai custar chegar lá, não fossemos nós andar entretidos por estes dias a pensar noutra coisa. Chegamos lá vivos. Mas vai custar. A frase é exemplar do pensamento político de Passos Coelho. Na verdade, é todo o pensamento político de Passos Coelho.

Porque sobre o , Passos pouco disse. Limitou-se a mais um lamiré sobre quanto nos vai custar lá chegar. é um lugar que fica pelo menos quatro mil milhões de euros mais adiante, muito para lá do enorme aumento de impostos e de tudo o que viveremos em 2013. Pode ser à custa da escola pública, pode ser à custa de mexer nas pensões mais miseráveis, pode ser à custa do coiso, pode ser à custa do que puder ser, custe o que custar. Passos não sabe, não diz, não garante. Portugal não é a Grécia, Portugal pode ser tudo menos a Grécia. Portugal não sabe o que quer ser, apenas que não quer ser a Grécia. A estratégia resume-se a isso. E é isso que assusta. Que esse imenso mas de tudo o que nos vai custar não tenha um que sirva de razão. O que ficará depois não se sabe, não se diz, não importa. Quando lá chegarmos, lá veremos.

Estratégia, do grego antigo stratègós, resulta da junção de stratos, exército, e ago, liderança. Originalmente, significava qualquer coisa como a arte do general. Pois por cá, tudo o que o general tem para nos dizer é isto: para lá, rapidamente e em força, repetindo-se à exaustão numa espiral obsessiva. é uma folha de Excel imaculada. É o lá, lá, lá do circulo virtuoso que Vítor Gaspar sonhou. O que lá realmente encontraremos é uma incógnita tão grande como a fantasia dos números inscritos neste orçamento. Resta o alívio de que lá chegaremos vivos. E a certeza de que Portugal não é a Grécia, mas os portugueses vão ver-se gregos.

publicado por duvidasoberana às 13:01
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