Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

Fezada

A cada vez que se fala em execução, a gente sente-se em frente de um pelotão de fuzilamento. De espingarda apontada à cabeça, a esperança morre primeiro que o condenado. A execução orçamental foi divulgada ontem e nem sequer foi notícia. Já se sabia, a sentença era conhecida e transitada em julgado. Não comoveu. Os números de ontem não batem certo hoje com o que se prevê para amanhã. Já se percebeu. O paradoxo é este: Portugal é hoje um país previsível apesar de falhar todas as previsões.

 

Na semana que passou, o Governo apresentou a sua proposta de Orçamento para 2013 e as surpresas também não foram muitas. Já as reacções foram. Muitas, variadas e para todos os gostos. Houve quem falasse em assalto, quem lhe chamasse desgraça, choque, bomba, quem o dissesse inevitável e até quem o defendesse. Mas houve um ponto de salutar consenso. Da esquerda à direita, de cima a baixo, executados e executores de anteriores executivos, quase toda a gente concordou: não é executável. Entre essa multidão, impressionaram Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, dois cidadãos com dois pontos em comum: ambos foram ministros das Finanças pelos partidos que desenharam este Orçamento, nenhum deles cumpre os mínimos para ser caloiro de António Borges.

 

Bagão começou por dizer que "isto é um terramoto” e que “ só falta saber se é 7 na escala de Ritcher, que é destruidor, se 8, que é arrasador". É uma imagem que se desaconselha, considerando a meia dúzia de sismólogos italianos que vão presos por não saberem avaliar um tremor de terra. Ferreira Leite também pressentiu a devastação: “vai aniquilar a classe média”, “vai deixar tudo morto”. Mas o campeonato das alegorias da desgraça esteve animado. “É napalm fiscal”, disparou Bagão. Depois, recuperando a parábola clínica da ex-ministra social-democrata, que falou da austeridade como um xarope que já não se engole, o ex-ministro do CDS diagnosticou que “esta receita pode gerar uma septicemia na economia.” Por fim, Ferreira Leite soergueu os olhos para o céu. “Quando olho para o Orçamento e o leio com a atenção devida tenho duas certezas: uma é de que não é exequível e outra é que abre um buraco negro muito grande sobre o nosso futuro.” Catástrofe natural, acto de guerra, doença terminal ou acontecimento de efeitos imprevisíveis para ser decifrado por astrofísicos: em resumo, é disto que se fala quando se fala deste orçamento.

 

Dito isto, sublinhe-se a lucidez de cartomante revelada por Ferreira Leite quando aponta para as estrelas. Estimar que a recessão fique em 1%, que o desemprego não vá além de 16,4%, que as receitas do IVA cresçam 2,2%, tudo isto, já se percebeu, é mais ou menos do domínio do oculto. E aqui entra a fezada, essa versão tão portuguesa e coloquial da fé dos homens. A fezada é mais que fé, mais que crença religiosa ou virtude teologal. A fezada é sagrada e pagã, tanto teme a deus como aos búzios. É uma mistura fascinante de facto e crença, convicção absoluta e certeza absurda, construção lógica e irrealismo trágico, suspeita fundada e confiança sebastianista. É aquilo que em Portugal tanto serve de avale a um plano esforçadamente engendrado como à inabalável intuição de que nos vai sair o Euromilhões na terça-feira. Mas com este OE dá-se um passo em frente. Nos mapas das receitas do Estado surge uma nova rubrica: Lotarias (está lá, vão conferir, mapa VI). Em cima de tudo o que se sabia, Gaspar decidiu taxar a nossa sorte a 20%. Um quinto do valor dos prémios de jogos sociais acima de 5 mil euros é para o Fisco. Quem vê no ministro um perfeito contabilista germânico, desengane-se. Porque com esta ideia simples Gaspar introduz definitivamente essa variável tão genuinamente portuguesa na difícil equação de um resgate estrangeiro. Contas feitas, o Estado tem a fezada de encaixar 50 a 60 milhões com a sorte que teremos no ano de todos os azares. Ora aí está a boa notícia: pelo menos 250 milhões em totolotos e raspadinhas ninguém nos tira. Haja fé, haja fezada, haja paciência. Porque Portugal está hoje como o Brasil que o grande MIlôr Fernandes diagnosticava há uma década: condenado à esperança.

publicado por duvidasoberana às 13:03
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